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sexta-feira, 18 de maio de 2012

O DESTINO DA MANHÃ

Ilustração: Antonio Ventura

       Hoje, dia 27 de setembro de 2005, 05:39 horas. Pensávamos que tínhamos o destino igual ao das grandes chuvas. Da chuva que chove a noite inteira como hoje. Sem parar, na madrugada quase dia. Pensávamos que o nosso destino fosse esta chuva. Mas não só esta chuva, pois sabíamos que com a chuva viriam os piados dos primeiros pássaros da manhã. Então pensávamos que nosso destino fosse os piados dos primeiros pássaros da manhã, que está chegando. E sabíamos que os pássaros anunciavam o sol que poderia vir logo na manhã, ou em alguma manhã, ou tarde do dia. Mas que o sol viria, e que nosso destino fosse o sol, com suas maçãs tão doces, e que nosso destino seria como as maçãs tão doces. Tão doces como nosso destino que acorda na madrugada quase dia, chuvosa. E a maravilha dos pássaros que piam lá fora, partes integrantes do mundo e da chuva. E esse é o nosso destino, o destino desta manhã, com os pios dos pássaros incessantes, penetrando nossos ouvidos, nosso corpo, nossa alma e nosso destino sobre a Terra.        

sexta-feira, 11 de maio de 2012

VAMOS LÁ


IIustração: Antonio Ventura
 Vamos lá, tá tá tá. Tá? E se não tá? Se não tá, torna-se fubá. Tico tico no fubá? Nem tico tico nem cá nem lá. Jatobá, e tudo vira mingau? Au, au. Que tal? A prisão eu vi do preso. E o preso éramos nós, retrós. Liberdade, pela janela, o sol. Mas tem sempre o fulano de tal. E nada no lençol. Nem eu, nem nós. Se peidar o bicho pega, ou o bicho cheira? Nem cheira, nem eira e nem beira. Na ribanceira fica a peidorreira. Sem uva na parreira, a parreira não existe, mesmo verde. Que te quero verde. Como os ventos. Cataventos. Moinhos. Toninhos. Chuva, enxurrada, pés descalços. Aqui, agora. A eternidade é o nada, da cagada. Pelada. Embananada. Como o nada, sem meninada. Sem passarada. É piada. Que não gosto. Desgosto. Mês de agosto. É passado. E o futuro? Procuramos. Na madrugada. Sem nada. Sem sonhos do mundo. Raimundo. Vagabundo. Bunda. Muda. Vulva. Pinto. Peito. Tudo bem, quando tem. O amor de alguém. Vagalume tem tem, seu pai tá aqui, sua mãe também. Pirilampos, tem no campo. Ah, que acalanto. No entanto. O canto, ficou no canto. Quieto. Apenas quieto. Não morto. Mas vivo. O anjo torto.