terça-feira, 3 de junho de 2014

Uma amostra do livro "O guardador de abismos"

O poema a seguir está publicado no livro "O guardador de abismos" .

TENTATIVA INÚTIL DE DESCREVER CHUVA CAINDO NA MADRUGADA QUASE DIA

Hoje, 25 de outubro de 2007, provavelmente quase cinco horas da manhã. Chove, barulho de água caindo dos toldos, dos telhados. E chove num ritmo igual, insistente. Meu amor eterno e breve como a vida dorme. E a chuva cai, no mesmo ritmo e mesmo barulho. Impressionante a chuva, sinfonia de uma nota só, na manhã cinza que vem chegando. Impressionante, a chuva foi só aumentar um pouco de intensidade para mudar a sinfonia, que continua, não obstante, no mesmo tom. A chuva e o barulho de água caindo é como uma rainha reinando em seu reino líquido. Barulho que acalanta, cantiga de ninar poeta insone. Cantiga de ninar água caindo dos toldos, do telhado da casa onde um poeta ouve a sinfonia da chuva que veio de longe, mas tão antiga como a chuva, meu doce amor que dorme. E chove! Mas nem por isso a Terra deixa de rolar nas profundezas do ar para apontar sua face para o sol; embora não garanta o amarelo quente, pode ser claridade cinza como os dias de chuva. Chove! E a
madrugada quase dia rola. E chove! No barulho de água indescritível sobre os toldos e sobre os telhados. Música de água líquida. Límpida, sobre a tristeza da Terra, sobre a tristeza dos homens que habitam a Terra. Ah, água límpida que lava a alma dos que dormem sob a chuva que canta, faz barulho incessante de chuva! Lava minha alma, ó barulho de chuva que não para, sinfonia, Bach da natureza sem instrumentos ou craviolas, mas chuva acalentadora e barulho incessante de água límpida caindo na madrugada que certamente será logo dia! Ah, chuva, meu amor, minha criança, minha menina que chamou o poeta insone para dizer sobre a chuva que não consigo descrever com  palavras esse barulho que acalanta minha alma e acalanta a noite caindo a chuva sobre os toldos e sobre os telhados. Ó barulho de chuva, desta chuva que cai lá fora, como poderei te pegar em palavras, como pássaros líquidos como a chuva que canta canção de Bach que ainda não foi escrita mas que canta em minha alma. Ó crianças, ó meninas, ó meninos, amada minha, filhos meus, acordem para olhar a chuva que cai por sobre os toldos e telhados!

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